Festa à Brasileira


A análise de cinco grandes festas brasileiras, nas cinco diferentes regiões do país, com suas particularidades regionais, e de centenas de outras constantes dos calendários estaduais mostra que há, certamente, muitas semelhanças entre elas e, ao mesmo tempo, que apesar da estrutura comum que as une, elas não são, absolutamente, iguais. Por outro lado, elas também não se opõem. Na verdade elas se complementam. Se a Festa do Peão Boiadeiro investe na construção de uma identidade rural associada aos caubóis americanos, heróis pioneiros dos filmes de western, inserindo Barretos e outras cidades no contexto internacional, a festa de São João, no nordeste, investe na versão mais brasileira desta identidade rural: a do “caipira”, esperto e jocoso, sábio e conhecedor da natureza, que através destas características sempre se sai bem no final das histórias. Do mesmo modo, a valorização da cultura nativa, indígena, na Festa de Parintins, é complementada pela valorização do nosso “pedaço alemão” através da Oktoberfest, português na Marejada, italiano na festa da Achiropita e outros. Ao mesmo tempo em que comemoram as colheitas de milho, fruto do duro trabalho na terra, as festas juninas unem aspectos lúdicos e mágicos de origens diversas com o culto aos santos católicos mediadores do amor, em que a dança da quadrilha e do forró podem ser vistas como instrumentos dessa mediação, sendo ainda festas onde a descontração, irreverência e jocosidade são incentivadas e intensamente praticadas. Estas características das festas juninas são complementadas pela profunda devoção do Círio de Nazaré, das Festas do Divino Espírito Santo e centenas de outras, com suas procissões que, ao sacralizarem os espaços das cidades onde se realizam, tornam sagradas também as relações sociais através da participação solene em novenas e missas, da distribuição dos cargos previstos na organização da festa,, da confecção de doces com nomes bíblicos. Com tantas congruências e incongruências, semelhanças e dessemelhanças, é possível falar em festa “à brasileira”?
A primeira impressão é a de que a festa não se deixa capturar, pois ela tem vários sentidos. Isto resulta exatamente de seu caráter mediador que lhe permite, através das inúmeras “pontes” que realiza entre valores e anseios, conter em si vários pares de oposição sem representar de modo exclusivo nenhum deles, constituindo-se, antes, de todos. Assim, ela é religiosa e profana, crítica e debochada, conservadora e vanguardista, divertida e devocional, esbanjamento e concentração, fruição e modo de ação social; ela ainda é o reviver do passado e projeção de utopias, afirmação da identidade particular de um grupo e inserção na sociedade global; expressão de alegria e de indignação.
No Brasil, a festa tanto nega como reafirma os valores sociais, utilizando-se, para isto, tanto de sua própria lógica como da lógica social. E neste sentido é possível falar em uma festa “à brasileira”. Sendo a festa de um povo formado por rica diversidade cultural, ela incorpora seus diversos valores, até mesmo os mais antagônicos, fantasiando-os, mascarando-os ou mesmo ressaltando seu caráter de antípoda em relação ao seu par, do qual, entretanto, não pode se separar. Assim, a diversidade de sentidos e os múltiplos conteúdos resultantes da formação cultural brasileira podem ser entendidos como um dos elementos que diferenciam a festa à brasileira das demais.
São vários, ainda, os aspectos que permitem responder afirmativamente pela existência de um modelo brasileiro de festa. O primeiro a chamar a atenção é sua forma. Em geral, tanto as festas de massa como as locais, de grupos menores, são festas processionais, em que os valores, religiosos ou profanos, tornados signos e símbolos desfilam pelas avenidas das cidades, na forma de andores, berlindas, alegorias, carros de som, seguidos pelos que festejam, ligados uns aos outros, compartilhando-os. As procissões do Círio e do Divino Espírito Santo, o desfile da Festa do Peão, o junino de Caruaru e o típico alemão em Blumenau, além dos não descritos mas conhecidíssimos desfiles de escolas de samba, afoxés, Caboclinhos do carnaval e tantos outros que colocam a cultura nas ruas, revivendo a história do povo representada pelo próprio povo são recorrentes nas festas brasileiras.
Além disso, das maiores à menores, todas as festas não apenas atualizam mitos, como revivem e colocam em cena a história do povo, contada sob seu ponto de vista. Ela é, como vimos, desde os primeiros tempos da colonização, um dos lugares ocupados pelo povo na história brasileira, talvez uma de suas primeiras conquistas reais, e nela ele se vê e se representa em papéis ativos. Desfilando pelas ruas a riqueza de suas relações com outros grupos, o privilégio de suas relações com as divindades todas que ouvem suas preces e lhe entregam milagres, ele se reconhece. Como se reconhece em força nas massas que caminham por grandes avenidas, empurrando carros alegóricos com símbolos de sua historia, empurrando a própria história, em toda sua riqueza, levando em frente suas paixões e suas utopias. E a breve substituição do poder oficial estabelecido por um poder de fantasia, mágico, pode ainda ser o meio para comunicar ao primeiro as críticas sociais e aspirações que não o alcançam no curso ordinário da vida política. Da Bandeira do Divino, com seu imperador e súditos desfilando pelas ruas das pequenas cidades ao monumental Carnaval Devoto de Nazaré, ou as alegorias futuristas de Joãosinho Trinta, o que está em cena é vida do povo, sua história e seus anseios encenados na forma de alegorias, máscaras e fantasias.
As festas que crescem muito tendem também a ocupar grandes espaços destinados a elas nos centros urbanos, muitas vezes construídos com esta função exclusiva, especialmente a partir da construção do Sambódromo do Rio de Janeiro, depois da qual surgiram espaços semelhantes em todo país, mais uma indicação de o Carnaval oferece elementos de referência a grande parte das festas brasileiras. Ter um espaço especialmente construído para a festa, em geral utilizando um símbolo da festa (o Bumbódromo de Parintins foi projetado na forma de chifres de boi, o Parque do Peão em Barretos tem a forma de uma ferradura, a cidade cenográfica em Caruaru é uma vila caipira etc.), indica a importância da festa e seu lugar na vida das cidades e do país, além da preocupação em receber bem os que vão à festa. Isto acontece, em geral, nos lugares em que as festas tornaram-se festas de massas, o que pode ser explicado pela urbanização que permite o acesso e a recepção de pessoas de toda parte.
No Brasil, também, as festas populares movimentam milhões de dólares em sua produção, providos por patrocinadores que a vêm usando como mais um lucrativo espaço para a inserção de propaganda e promoção de consumo, investindo a cada ano mais neste filão, como é o caso da Coca-Cola que patrocina a Festa de Parintins, do Bradesco que patrocina a Festa do Peão Boiadeiro, da Brahma que patrocina centenas de festas no Brasil. Não se trata, contudo, de a festa ter sido invadida pela publicidade e arrancada das mãos populares e, sim, da necessária negociação para seu crescimento juntamente à percepção, por parte das populações, das vantagens, além do divertimento, que ela é capaz de proporcionar ao crescer, mesmo se para isso for preciso que algo se transforme um pouco. Deste modo, as grandes festas já não são festas “espontâneas” mas cuidadosamente planejadas, para as quais os preparativos são feitos com muita antecedência e implicam a organização permanente de pessoas encarregadas de executar inúmeras tarefas. No caso das pequenas festas, isto também acontece, embora em escala menor, pois nela os patrocinadores são pessoas do povo, como é o caso da Festa do Divino ou ainda da Festa da Achiropita, entre centenas de outras. As festas brasileiras são, ainda, festas de longa duração, período em que tudo se mobiliza em função delas, pontuado por momentos fortes, rituais, e outros, menos marcados, onde o que conta é o lazer, o namoro, a diversão, a transposição de limites e quebra de regras.
A festa “à brasileira” tem se mostrado ainda, surpreendentemente, como um modo informal de concentração e redistribuição de riquezas, como vimos nos exemplos da Oktoberfest, da Festa da Achiropita e do Peão Boiadeiro. O investimento dos recursos arrecadados nas festas preferencialmente em obras sociais (creches, escolas, asilos) é freqüente e as associações criadas para realizar a festa acabam, muitas vezes, ultrapassando seu momento, tornando-se instituições ou mesmo organizações não governamentais, que visam agir de modo a melhorar as condições de vida populares. A Festa da Achiropita e o C.E.D.O, a Escola Criativa do Olodum na Bahia, os trabalhos sociais da Estação Primeira de Mangueira, no Rio de Janeiro, e os investimentos da Oktoberfest, entre outros, são exemplares. É claro que não estou afirmando que as festas são feitas com finalidades sociais ou de redistribuição de riquezas, mas esta é uma característica bastante significativa quando falamos de
Tanto a festa é um valor diacrítico na cultura nacional que ela é constantemente referida como característica brasileira e vem se tornando um produto turístico cada vez mais atraente, pelo que se pode deduzir dos relatórios da EMBRATUR e das Secretarias de Turismo. Ela tem gerado um crescente mercado de empregos, produtos e serviços que lhe são correlatos, o que propicia seu mais rápido crescimento e a difusão de modelos de festas por todo o país, como é o caso das Fests, das Festas de Peão e das Festas de Colheitas, inspiradas na Festa da Uva. Além disso, toda a infra-estrutura necessária ao crescimento das festas (hotéis, estacionamentos, restaurantes, lojas, gráficas, farmácias, hospitais etc.), cresce à proporção em que as festas crescem. Elas retêm, ainda, uma fatia do mercado fonográfico, de marketing, jornalístico, televisivo etc., o que faz delas, também, um dos bons negócios brasileiros.
Existem ainda outras dimensões relevantes, como a organização política local e o uso da festa, como vimos no exemplo do São João nordestino, e no Círio de Nazaré. O poder instituído tenta fazer uso da festa em seu favor, mas ela não se deixa capturar. A negociação entre os símbolos da festa e seu uso político é complexa, e ela não se rende, senão naquilo que considera necessário para atingir seus objetivos. Ao mesmo tempo, se o Estado tenta fazer da festa um produto turístico, e em certos pontos ela se permite usar, devemos lembrar que para aqueles que realmente dominam o código da festa, a leitura dos símbolos que ela contém é sempre diferente da leitura dos turistas e visitantes, que a vêem, geralmente, como espetáculo e diversão.
Não é à toa, como se vê, que se diz que "no Brasil tudo acaba em festa". Isto é compreensível, já que ela pode comemorar acontecimentos, reviver tradições, criar novas formas de expressão, afirmar identidades, preencher espaços na vida dos grupos, dramatizar situações e afirmações populares. Ser o espaço de protestos (as passeatas e manifestações pelo impeachment do presidente Collor de Mello, em 1992, eram imensas festas, com música, dança e comida) ou da construção de uma cidadania "paralela"; de resistência à opressão cultural, social, econômica ou, ainda, de catarse. Além disso, sendo capaz de mediar diferentes valores, termos e sentidos, numa sociedade pluricultural como a brasileira, ela se revela como poderoso instrumento de interação, compreensão, expressão da diversidade, englobando-as e permitindo a todos se reconhecerem, na festa, como um povo único.
Todas estas dimensões fazem, portanto, da festa brasileira, uma festa especial. Não porque seja exclusiva do povo brasileiro, mas porque, no Brasil, adquire significados sociais, culturais e políticos específicos, sendo inegável a disposição permanente dos brasileiros para a festa. Isto é percebido tanto pelos estrangeiros como pelos próprios brasileiros, conformando uma imagem social e uma auto-imagem em que a disposição para a festa constitui um traço marcante da identidade nacional.
Por fim, se quisermos dizer que, no Brasil, nem tudo acaba em festa, devemos lembrar que, com certeza, muitos projetos e transformações, muitos sonhos, começam e são vividos na festa, razão portanto para que ela seja querida e cresça, crescendo também o orgulho brasileiro de festejar. Afinal, “a gente não quer só comida. A gente quer comida, diversão e arte”. A gente quer festa.

Um comentário:

Eduardo P.L. disse...

Claudinha,

CUIDADO com FESTAS longas como essa. Ninguém le!
De um resuminho e deixe o link para quem quiser se aprofundar!


Bjs