Da Laia do Lama



Depois que Deus fez a terra /Esculpiu do barro os ossos de Adão/Retirou a parte mais bela/E fazendo a mulher inventou a paixão
Ao criar essa tal divisão/Fez o homem mover a engrenagem da história/Pra curar sua solidão/E salvar sua Helena de Tróia
Mas se o homem é de barro/Cuidado com o andor, esse santo não pode quebrar/Já diria o provérbio de raro valor/Quem tem pressa vai devagar
Eu sou da laia, da laia, do lamaDa laia, da lama, do lado de cá/Mas tô muito afins dessa dama/Eu quero nirvana é agora e é já
Fui descer ao porão da matéria/Beliscar alimento pagão/Revolver a humana miséria/Religar minha religião
Com os pés enterrados na lama/Busquei claridade na escuridão/Fiz o meu coração em pedaços/Colei os meus cacos e me sinto são

2 comentários:

entremares disse...

- Mimi… não te vais esconder outra vez no quarto, pois não ?
É claro que ia.
Estranhamente, a pequena Mimi – que nunca fora aquele tipo de criança introvertida e solitária – estava diferente. Apesar dos seus oito anos, dúzias de amigos, festas de aniversário e três irmãs mais velhas que a mimavam até ao limite… decidira, sem motivo aparente, refugiar-se no seu quarto, onde cada vez passava mais tempo.
A principio, ninguém ligou.
Quando, num belo sábado de manhã, Mimi apareceu na cozinha com os braços todos sujos de barro, o nariz esborratado e os calções brancos com 3 grandes manchas castanhas… a mãe percebeu finalmente que algo de diferente estava a acontecer.
- Mimi… estás horrível. O que tens andado a fazer… para ficar nesse estado?
A pequena limitou-se a lavar os braços e dedicou-lhe um sorriso condescente.
- Ainda não te posso contar, mãe… é segredo…
- Segredo ? O que andas tu a magicar ? Não estás a pensar ir outra vez investigar o meu armário dos sapatos, pois não ? Já conversámos sobre isso…
- Não, mãe… a sério, é só um segredo pequenino, não tem mal nenhum…
E fugiu a correr, de volta ao quarto.
A mãe não ficou lá muito convencida. Mas o apitar da panela de pressão depressa a fez esquecer o sucedido; era melhor juntar as carnes… ou então o cozido à portuguesa só ficaria despachado à hora do lanche…

Mais uma semana passou.
Por duas ocasiões, a pequena Mimi apareceu em casa com novos carregamentos de barro – a mãe questionava-se seriamente em imaginar o quarto transformado em estaleiro de obras, para já não falar do estado em que se deveria encontrar o soalho… - não, era melhor nem pensar nisso.
- Mimi… anda almoçar… o almoço está na mesa…
Ela desceu prontamente.
Aquelas sobrancelhas enrugadas dispensavam maiores explicações.
- Então, Mimi… vais fazer-nos alguma surpresa, é isso ?
A filha olhou para o prato, depois para a mãe.
- Não estou a conseguir… - desabafou, amargurada.
A mãe passou-lhe a mão pelos cabelos.
- Oh, Mimi… eu sei que nos disseste que era segredo… mas se precisares de ajuda… eu ajudo-te. Estás a fazer algum trabalho para a escola, é isso ? Com o barro ?
- Não posso contar… a Sónia não ia gostar…
- A Sónia ? Quem é a Sónia, querida ?
- A Sónia da catequese…
- Ah, essa Sónia… então o trabalho é para ela ? Não te preocupes, eu sei que tu vais conseguir…

Pouco devia faltar para as quatro da tarde.
A sala de estar permanecia na penumbra, as madeiras das janelas fechadas a evitar o sol de Maio. Filipa, a mãe da pequena Mimi dormitava sobre o sofá, depois de arrumar a cozinha e colocar toda a loiça na máquina – uma mesa para uma família de seis… era muita loiça.
Sentia-se exausta.
Na televisão sem som, as imagens da novela sucediam-se, mas Filipa nem lhes prestava atenção – ser mãe, trabalhadora doméstica e enfermeira por turnos era, como dizer ? Arrasador.
Um estrondo no andar de cima trouxe-a subitamente de volta à realidade.

(continua...)

entremares disse...

(... continuação)

- Mimi ? – gritou, em sobressalto – Mimi, estás bem ?
A Mimi não respondeu.
Com aquela energia que surge quando menos se espera, galgou os degraus que a separavam do corredor do primeiro andar, onde se localizavam os quartos.
- Mimi – voltou a gritar.
Irrompeu pelo quarto, afogueada.
Não reparou na sujidade, nos cortinados das janelas manchados de dedadas de barro, na mancha escura no canto esquerdo do soalho, não viu nada.
Os seus olhos procuraram simplesmente a pequena Mimi, que aparentemente incólume, permanecia de pé, imóvel no centro do quarto, rodeada de cacos e pedaços partidos de barro seco.
- Mimi… estás bem? O que aconteceu ?
Agarrou-se a ela, ainda tremendo de ansiedade.
- É mentira… é tudo mentira…
- O que é mentira, meu amor ?
A pequena Mimi apontou para o chão.
Sobressaindo dos restantes cacos, um grande pedaço de barro, com aquilo que aparentava ser a parte superior de um corpo humano, jazia tombado no chão, bem junto dos pés da pequenita.
- Ele … - e continuava a apontar para a metade da estátua que fizera com tanto cuidado, agora despedaçada no chão – ele é que é uma mentira… é tudo mentira…
- Não percebo, Mimi… tens que me explicar… o que é mentira ? Foste tu que conseguiste fazer sozinha esta estátua, é isso ?
A Mimi continuava a contemplar a sua obra destruída.
- A Sónia explicou-nos… - lá foi ela dizendo – lá na catequese… e eu percebi tudo, a sério que percebi…. Que ele se chamava Adão, ela era a Eva, eu até já tinha batizado o meu boneco… ia chamar-lhe Mário…
- Qual boneco, meu amor ? A tua estátua ? Não percebo…
A pequena Mimi nem a ouvia.
- … e ela disse-nos que depois Ele tinha soprado o barro… e a estátua tinha ficado viva… e eu soprei, eu soprei, eu fiz muitas estátuas, oh mãe… eu soprei em todas… mas não consegui… eu não tenho força para soprar muito, só sei soprar devagarinho…
A mãe reparou então em todos os outros pedaços de barro, abandonados pelos cantos do quarto; braços, troncos, pernas, metades de corpos de barro… todos sem vida, informes e imóveis…
A pequena Mimi continuava com o olhar perdido algures, à procura de uma explicação que não chegava.

- Sabes Mimi… não é assim tão simples…
- Oh, mãe… - e agarrou-se-lhe ao pescoço, a soluçar – então explica-me como é, por favor… por favor…

( Gostei muito do poema )